Direitos Humanos, dignidade e ética profissional · Psicologia

🕊️ Direitos Humanos,
dignidade e ética profissional

Da construção histórica dos direitos à responsabilidade ética da Psicologia
📘 Prática de Extensão — Direitos Humanos, Justiça e Trabalho 📅 AULA 2 — 18 de agosto de 2026

📋 Síntese da aula

1. O que são Direitos Humanos?

Os Direitos Humanos podem ser compreendidos como direitos inerentes à condição humana, fundamentados na dignidade, liberdade e igualdade.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, afirma que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

Os Direitos Humanos abrangem diferentes dimensões da vida:

  • liberdade;
  • igualdade;
  • segurança;
  • educação;
  • saúde;
  • trabalho;
  • proteção social;
  • participação na vida pública.

Referência: Organização das Nações Unidas (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos.

2. Direitos Humanos como construção histórica

Os Direitos Humanos não surgiram de forma pronta ou linear.

A partir da perspectiva de José Damião de Lima Trindade, é necessário compreender os direitos em seu contexto histórico e social, considerando as forças, conflitos e interesses que participaram de sua construção.

As ideias de liberdade e igualdade foram formuladas e disputadas em diferentes contextos históricos, mas sua efetivação esteve relacionada às condições concretas de cada sociedade.

Direitos são construídos, disputados e transformados.

Referência: Trindade, J. D. L. História social dos direitos humanos; Anotações sobre a História Social dos Direitos Humanos.

3. Revolução Francesa e Direitos Humanos

A Revolução Francesa, iniciada em 1789, constitui um marco fundamental para compreender a história moderna dos Direitos Humanos.

1788Crise do Antigo Regime
1789Convocação dos Estados Gerais
14 de julho de 1789Queda da Bastilha
4 e 5 de agosto de 1789Abolição dos privilégios feudais
26 de agosto de 1789Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
1791Constituição e voto censitário

Referência: Trindade, J. D. L. História social dos direitos humanos.

4. Quem participou da Revolução?

O chamado Terceiro Estado não era um grupo homogêneo.

Reunia diferentes segmentos sociais:

  • burguesia;
  • pequenos comerciantes;
  • artesãos;
  • trabalhadores;
  • camponeses;
  • setores populares urbanos.

Esses grupos possuíam interesses diferentes.

A burguesia possuía crescente força econômica, mas encontrava limites políticos impostos pela estrutura do Antigo Regime e pelos privilégios de nascimento.

Ao mesmo tempo, as camadas populares participaram ativamente das mobilizações e apresentavam suas próprias reivindicações.

A Revolução não foi uma disputa entre apenas dois grupos.

Foi um processo marcado por diferentes sujeitos, interesses e projetos de sociedade.

Referência: Trindade, J. D. L.

5. A contradição da Declaração de 1789

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão proclamou princípios universais de liberdade e igualdade.

Entretanto, a forma como esses princípios foram concretizados foi marcada pelas disputas e interesses presentes naquele contexto histórico.

A Declaração não estabeleceu imediatamente uma sociedade plenamente democrática e igualitária.

Entre os limites históricos estavam:

  • restrição da participação política;
  • voto censitário;
  • exclusão das mulheres dos direitos políticos;
  • manutenção de desigualdades sociais;
  • limites à universalização efetiva dos direitos.

Trindade destaca que os constituintes realizaram uma seleção dos significados e alcances dos princípios de liberdade e igualdade, de acordo com interesses e conveniências presentes naquele processo.

Direitos universais na linguagem significam direitos efetivamente universais na prática?

6. A Reação Termidoriana

Em 27 de julho de 1794, ocorreu a queda de Robespierre, marcando o início da chamada Reação Termidoriana.

O processo representou uma reação à radicalização da Revolução Francesa e ao poder dos jacobinos.

A partir desse momento, houve:

  • enfraquecimento da participação política popular;
  • desmobilização de organizações populares;
  • reação às propostas mais igualitárias;
  • retomada de posições mais favoráveis à propriedade e à ordem.
A Revolução não foi linear.
Liberdade → igualdade → disputa → radicalização → reação A história dos Direitos Humanos também é uma história de avanços, conflitos, limites e retrocessos.

7. Direitos Humanos e trabalho

A Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece o trabalho como um direito.

O artigo 23 estabelece o direito:

  • ao trabalho;
  • à livre escolha do trabalho;
  • a condições equitativas e satisfatórias;
  • à proteção contra o desemprego;
  • à igualdade de remuneração por trabalho igual;
  • à remuneração compatível com uma existência digna;
  • à organização sindical.

O artigo 24 reconhece ainda o direito ao repouso e ao lazer, incluindo a limitação razoável da jornada de trabalho.

Referência: ONU (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O trabalho não é apenas uma atividade econômica.

É também uma dimensão relacionada à dignidade, direitos, identidade e vida social.

⚖️ PARTE II — ÉTICA E PSICOLOGIA

8. Direitos Humanos e Código de Ética

O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece que a atuação profissional deve estar fundamentada no respeito e na promoção:

🕊️ LIBERDADE

👤 DIGNIDADE

⚖️ IGUALDADE

🛡️ INTEGRIDADE

O Código também estabelece a responsabilidade social da Psicologia e orienta o profissional a considerar criticamente as condições sociais, econômicas, políticas e culturais presentes em sua atuação.

Referência: Conselho Federal de Psicologia. (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo.

9. Ética profissional e responsabilidade social

A ética profissional não se reduz ao cumprimento de regras.

O Código de Ética deve ser compreendido também como um instrumento de reflexão sobre a prática profissional.

O psicólogo é chamado a:

  • promover saúde e qualidade de vida;
  • combater negligência, discriminação, exploração e violência;
  • considerar criticamente a realidade;
  • respeitar a dignidade humana;
  • reconhecer as relações de poder presentes nos contextos de atuação.

Referência: CFP (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo.

10. Relações de poder

O Código de Ética orienta o psicólogo a considerar as relações de poder presentes nos contextos em que atua.

Isso significa que a Psicologia precisa perguntar:

  • Quem possui poder?
  • Quem possui voz?
  • Quem toma decisões?
  • Quem é ouvido?
  • Quem é silenciado?
  • Quem tem acesso aos recursos?
  • Como essas relações afetam a vida das pessoas?

Não existe prática psicológica fora de um contexto social.

🌎 PARTE III — VERA MARIA CANDAU

11. Educação em Direitos Humanos

Para Vera Maria Candau, a Educação em Direitos Humanos não deve se limitar à transmissão de informações sobre direitos.

É necessário construir uma cultura de Direitos Humanos.

Essa construção envolve:

  • Direitos fundamentais
  • Democracia
  • Cidadania
  • Reconhecimento das diferenças
  • Justiça social

Referência: Candau, V. M. Educação em Direitos Humanos: desafios atuais.

12. Igualdade e diferença

Candau propõe superar uma falsa oposição:

❌ Igualdade versus diferença

✅ IGUALDADE + RECONHECIMENTO DAS DIFERENÇAS

Reconhecer diferenças não significa aceitar desigualdades.

O desafio é construir relações sociais em que a diversidade não seja transformada em justificativa para exclusão, discriminação ou inferiorização.

Referência: Candau, V. M.

13. Sujeitos de direito

Um dos objetivos da Educação em Direitos Humanos é favorecer a formação de:

SUJEITOS DE DIREITO

Isso significa compreender que:

direitos não são favores. Não dependem da benevolência de outra pessoa ou instituição. A pessoa é reconhecida como sujeito capaz de conhecer seus direitos, participar e reivindicá-los.

Referência: Candau, V. M.

14. Empoderamento e participação

Candau também destaca o empoderamento como dimensão importante da Educação em Direitos Humanos.

Empoderar envolve favorecer condições para que pessoas e grupos:

  • reconheçam sua capacidade de ação;
  • participem das decisões;
  • expressem suas necessidades;
  • ampliem sua autonomia;
  • atuem coletivamente.

Empoderar não significa decidir pelo outro.

Significa ampliar possibilidades de participação e ação.

Referência: Candau, V. M.

15. Teoria e prática

A Educação em Direitos Humanos precisa articular:

CONHECIMENTO
REFLEXÃO
EXPERIÊNCIA
AÇÃO

Candau destaca a importância de estratégias ativas, participativas e contextualizadas, articulando teoria e prática e considerando dimensões cognitivas, afetivas e sociais.

Direitos Humanos não são apenas conteúdo.

São também prática social.

🧠 INTEGRAÇÃO DOS AUTORES

16. Três perspectivas complementares

📜 TRINDADE

Como os direitos foram construídos?

→ História
→ Conflitos
→ Interesses
→ Poder
→ Lutas sociais

🕊️ DECLARAÇÃO UNIVERSAL

Quais direitos são afirmados?

→ Dignidade
→ Liberdade
→ Igualdade
→ Trabalho
→ Proteção social

📖 CÓDIGO DE ÉTICA

Qual é a responsabilidade da Psicologia?

→ Dignidade
→ Direitos
→ Responsabilidade social
→ Não discriminação
→ Relações de poder

🌱 CANDAU

Como transformar direitos em prática?

→ Sujeitos de direito
→ Participação
→ Empoderamento
→ Democracia
→ Transformação social

🎯 Ideias-chave

  • Direitos Humanos são uma construção histórica.
  • Sua efetivação envolve disputas sociais e relações de poder.
  • A Revolução Francesa proclamou princípios universais, mas sua concretização foi marcada por limites históricos.
  • O trabalho também é um Direito Humano.
  • A ética da Psicologia está fundamentada no respeito à dignidade e aos direitos humanos.
  • A Psicologia possui responsabilidade social.
  • Reconhecer diferenças não significa aceitar desigualdades.
  • Direitos não são favores: somos sujeitos de direitos.
  • Conhecer direitos é diferente de conseguir exercê-los.
  • Direitos Humanos precisam ser transformados em práticas sociais.

💬 Para discutir em aula

  1. Se os Direitos Humanos são universais, por que sua efetivação historicamente foi tão desigual?
  2. Quem se beneficia quando um direito existe formalmente, mas não consegue ser exercido na prática?
  3. Quais relações de poder podem interferir na efetivação dos direitos?
  4. O que muda na atuação do psicólogo quando compreendemos uma pessoa como sujeito de direitos?
  5. Quando uma demanda relacionada ao trabalho deixa de ser apenas individual e passa a envolver questões sociais e de direitos?
  6. Como a Psicologia pode contribuir para ampliar a autonomia e a participação dos sujeitos sem falar ou decidir por eles?

🔎 Ponte com a extensão

A partir desta aula, começamos a construir um novo modo de olhar para as demandas que encontraremos na Clínica-Escola de Psicologia.

Uma pessoa pode chegar dizendo:

"Estou sofrendo por causa do meu trabalho."

A Psicologia precisa aprender a perguntar:

O que está acontecendo?

Em que contexto?

Quais relações estão envolvidas?

Quais direitos estão implicados?

Quais relações de poder estão presentes?

Que condições de trabalho participam desse sofrimento?

Quais possibilidades de autonomia e ação existem?

O sofrimento é individual, mas nunca precisa ser compreendido isoladamente do contexto em que a pessoa vive.

📚 Leituras da aula

1. Declaração Universal dos Direitos Humanos

ONU. (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Leitura: Preâmbulo e artigos relacionados à dignidade, igualdade, liberdade, trabalho e proteção social.

2. Código de Ética Profissional do Psicólogo

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo.

Leitura: apresentação e Princípios Fundamentais.

3. Trindade — História Social dos Direitos Humanos

TRINDADE, José Damião de Lima. História social dos direitos humanos.

Leitura orientada: construção histórica dos Direitos Humanos, Revolução Francesa, lutas sociais, interesses de classe e limites da universalização dos direitos.

4. Candau — Educação em Direitos Humanos

CANDAU, Vera Maria. Educação em Direitos Humanos: desafios atuais.

Leitura orientada: cultura dos Direitos Humanos, sujeitos de direito, igualdade e diferença, empoderamento e articulação entre teoria e prática.

🌱 Síntese da aula

Direitos Humanos não são apenas aquilo que está escrito na lei.
São também:
história → luta → disputa → conquista → reconhecimento → efetivação

E para a Psicologia:
DIREITOS HUMANOS
ÉTICA PROFISSIONAL
RESPONSABILIDADE SOCIAL
COMPREENSÃO DO CONTEXTO
AUTONOMIA E PARTICIPAÇÃO
PRÁTICA PSICOLÓGICA

Compreender os direitos para compreender o sujeito.

Compreender o contexto para não reduzir o sofrimento ao indivíduo.

Conhecer para poder transformar.

🧠 Mapa conceitual

Direitos Humanos, dignidade e ética profissional

DIREITOS HUMANOS
├── CONSTRUÇÃO HISTÓRICA — Trindade │ ├─ Revolução Francesa │ ├─ Lutas sociais │ ├─ Interesses sociais │ ├─ Relações de poder │ └─ Conquistas e limites │ ├── DIGNIDADE — DUDH │ ├─ Liberdade │ ├─ Igualdade │ ├─ Segurança │ ├─ Saúde │ ├─ Educação │ └─ Trabalho │ ├── ÉTICA — Psicologia │ ├─ Dignidade │ ├─ Liberdade │ ├─ Igualdade │ ├─ Integridade │ ├─ Responsabilidade social │ └─ Relações de poder │ └── PRÁTICA SOCIAL — Candau ├─ Sujeitos de direito ├─ Igualdade + diferença ├─ Empoderamento ├─ Participação ├─ Democracia └─ Transformação social

PSICOLOGIA
COMPREENDER → ANALISAR → ESCUTAR → INTERVIR

TRABALHO + SAÚDE MENTAL + DIREITOS

📚 Referências

  • CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
  • CANDAU, Vera Maria. Educação em Direitos Humanos: desafios atuais.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Paris, 1948.
  • TRINDADE, José Damião de Lima. História social dos direitos humanos.
📘 Aula 2 — Direitos Humanos, dignidade e ética profissional · Psicologia e Direitos Humanos
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