🧠 Organização do Trabalho,
Sofrimento Psíquico e Saúde Mental
🗺️ Onde estamos no nosso percurso?
Do direito ao trabalho à saúde mental
↓ Aula 5 — Trabalho, identidade e subjetividade
↓ Aula 6 — Organização do trabalho, sofrimento psíquico e saúde mental
↓ Aula 7 — Saúde mental relacionada ao trabalho, fatores psicossociais e prevenção
↓ Aula 9 — NR-1, riscos psicossociais e atuação da Psicologia
🔄 Retomando a aula anterior
Na Aula 5, vimos que o trabalho:
- não é apenas fonte de renda;
- participa da construção da identidade;
- participa da constituição da subjetividade;
- envolve relações sociais;
- mobiliza corpo, inteligência e afetos;
- pode ampliar ou restringir possibilidades de realização.
🤔 Uma pergunta para começar
Imagine duas pessoas exercendo a mesma profissão.
Uma trabalha em um ambiente com:
- autonomia;
- reconhecimento;
- cooperação;
- recursos adequados;
- possibilidade de diálogo.
A outra trabalha com:
- controle permanente;
- metas impossíveis;
- competição;
- insegurança;
- falta de reconhecimento.
📌 Não é apenas o "tipo de trabalho"
Quando pensamos em saúde mental relacionada ao trabalho, não basta perguntar:
Precisamos perguntar:
A organização do trabalho pode modificar profundamente a experiência de quem trabalha.
🎯 A questão central da aula
Para responder, vamos percorrer:
↓ trabalho prescrito × trabalho real
↓ experiência do trabalhador
↓ sofrimento
↓ estratégias defensivas
↓ cooperação e reconhecimento
↓ saúde mental
🔧 Trabalhar não é apenas executar uma tarefa
Todo trabalho possui algum nível de:
- prescrição;
- regras;
- procedimentos;
- horários;
- metas;
- responsabilidades;
- divisão de tarefas.
Mas aquilo que foi planejado nunca corresponde completamente ao que acontece na realidade.
📋 Trabalho prescrito
O trabalho como deveria ser realizado
Inclui:
- normas;
- protocolos;
- procedimentos;
- metas;
- horários;
- regras;
- equipamentos previstos;
- responsabilidades definidas.
É a dimensão planejada e formalizada do trabalho.
⚡ Trabalho real
O trabalho como efetivamente acontece
Na realidade aparecem:
- imprevistos;
- falhas;
- urgências;
- limitações;
- contradições;
- necessidades das pessoas;
- problemas que não estavam previstos.
O trabalhador precisa encontrar maneiras de realizar a atividade apesar dessas diferenças.
📏 A distância entre o prescrito e o real
O trabalho real nunca é simplesmente a execução automática do trabalho prescrito.
Entre aquilo que foi planejado e aquilo que acontece existe um espaço que precisa ser preenchido pelo trabalhador.
É nesse espaço que aparecem:
- experiência;
- inteligência;
- criatividade;
- julgamento;
- adaptação;
- decisões.
❓ Quem resolve os imprevistos?
Quando o protocolo não dá conta da realidade, alguém precisa decidir:
Essa decisão mobiliza conhecimentos que muitas vezes:
- não estão escritos;
- não aparecem nos manuais;
- não são facilmente mensuráveis;
- são adquiridos pela experiência.
👁️ O trabalho invisível
Nem tudo o que é necessário para realizar um bom trabalho aparece no resultado final.
Existe um conjunto de:
- decisões;
- tentativas;
- adaptações;
- antecipações;
- esforços;
- cooperações;
- renúncias.
O resultado pode parecer simples.
O trabalho necessário para produzi-lo pode não ser.
🏗️ Organização do trabalho é mais do que dividir tarefas
A organização do trabalho envolve também:
- ritmo;
- tempo;
- hierarquia;
- controle;
- avaliação;
- distribuição de responsabilidades;
- relações de poder;
- formas de reconhecimento;
- possibilidades de cooperação.
⚡ Organização do trabalho e relações de poder
Quem define:
- o que deve ser feito?
- como deve ser feito?
- em quanto tempo?
- com quais recursos?
- como será avaliado?
- quem será responsabilizado?
Essas decisões não são neutras.
Elas expressam determinada forma de organizar as relações de trabalho.
📖 Christophe Dejours
Psicodinâmica do Trabalho
Dejours desloca nossa atenção:
Não apenas: "O trabalhador está adoecido?"
Mas também: "Como a relação entre trabalhador e organização do trabalho produz sofrimento?"
💭 Por que falar em sofrimento?
O sofrimento aparece quando o sujeito se confronta com algo que:
- resiste;
- frustra;
- limita;
- impede;
- contradiz suas expectativas ou possibilidades de agir.
O sofrimento, portanto, não pode ser compreendido apenas como uma característica individual.
🧱 O real do trabalho resiste
O trabalhador pode descobrir que:
A realidade exige respostas. E essas respostas mobilizam o sujeito.
🔄 Sofrimento e mobilização
O sofrimento não significa automaticamente doença.
Ele pode constituir um ponto de partida para:
- pensar;
- criar;
- buscar soluções;
- desenvolver estratégias;
- transformar a situação.
O problema surge quando as possibilidades de ação são bloqueadas.
⚠️ Quando o sofrimento se torna patogênico?
Quando o trabalhador:
- não consegue transformar a situação;
- não encontra espaço para agir;
- não consegue utilizar sua inteligência;
- não encontra reconhecimento;
- permanece submetido a contradições sem possibilidade de negociação.
O sofrimento pode deixar de ser mobilizador e assumir caráter patogênico.
🧑🔧 O trabalhador não é passivo
Uma contribuição importante de Dejours é compreender que o trabalhador:
- interpreta;
- inventa;
- adapta;
- cria;
- negocia;
- coopera;
- desenvolve estratégias.
Trabalhar é também encontrar maneiras de enfrentar o real.
🧠 O corpo também trabalha
O trabalho mobiliza:
- corpo;
- percepção;
- experiência;
- inteligência prática;
- sensibilidade;
- afetos.
A competência profissional não está apenas no conhecimento formal.
Ela também se constrói na experiência de trabalhar.
🔄 Trabalho e subjetividade
O trabalho pode AMPLIAR
- autonomia;
- competência;
- pertencimento;
- reconhecimento;
- possibilidades de realização.
Ou RESTRINGIR
- autonomia;
- criatividade;
- poder de agir;
- reconhecimento;
- sentido.
🌱 O trabalho transforma quem trabalha
Trabalhar não significa apenas produzir alguma coisa.
Também significa: transformar-se na relação com aquilo que se faz.
Por isso, compreender o trabalho é também compreender processos de subjetivação.
🩺 Sofrimento não é sinônimo de transtorno mental
Precisamos diferenciar:
SOFRIMENTO PSÍQUICO
TRANSTORNO MENTAL
O sofrimento pode existir sem configurar um diagnóstico.
E um diagnóstico, por sua vez, não permite concluir sozinho que sua origem esteja no trabalho.
⚖️ Evitando o reducionismo
Diante de um trabalhador que sofre, duas respostas simplificadoras são possíveis:
Reducionismo individual
"O problema está na pessoa."
Reducionismo organizacional
"O problema está exclusivamente na empresa."
A perspectiva psicossocial procura compreender: a relação entre sujeito, atividade, organização e contexto.
🔄 Mudando a pergunta
Em vez de perguntar somente:
"O que há de errado com esse trabalhador?"
perguntamos também:
"O que está acontecendo com esse trabalhador no trabalho?"
E ainda: "Quais condições estão participando dessa experiência?"
💪 Sofrimento e possibilidade de agir
Quando existe possibilidade de:
- dialogar;
- negociar;
- adaptar;
- cooperar;
- participar;
- transformar;
o sofrimento pode assumir outra dinâmica.
🚫 Quando não há espaço para agir
Se a pessoa:
- percebe o problema;
- identifica a dificuldade;
- sabe que algo precisa mudar;
mas não possui meios para agir, pode surgir uma experiência de impotência.
Sofrer sem possibilidade de transformação tende a produzir desgaste.
🛡️ Como as pessoas continuam trabalhando?
Se o trabalho pode produzir sofrimento, surge uma pergunta:
Dejours ajuda a compreender o papel das estratégias defensivas.
🛡️ Estratégias defensivas
São formas construídas para lidar com situações que produzem sofrimento.
Podem permitir:
- suportar determinada situação;
- preservar o funcionamento psíquico;
- continuar realizando o trabalho;
- reduzir temporariamente a tensão.
⚠️ Defesa não é necessariamente solução
Uma estratégia defensiva pode proteger o trabalhador.
Mas também pode:
- mascarar o sofrimento;
- naturalizar condições inadequadas;
- impedir a percepção do problema;
- dificultar sua transformação.
Aliviar o sofrimento não significa necessariamente transformar aquilo que o produz.
🤝 O coletivo importa
O sofrimento no trabalho não é apenas uma experiência individual.
Os trabalhadores constroem:
- formas de cooperação;
- regras compartilhadas;
- estratégias coletivas;
- maneiras de enfrentar dificuldades.
O coletivo pode funcionar como proteção.
💔 Quando o coletivo se fragiliza
Quando predominam:
- competição permanente;
- individualização;
- isolamento;
- avaliação individual;
- insegurança;
- desconfiança;
podem se enfraquecer:
- solidariedade;
- cooperação;
- pertencimento;
- reconhecimento.
❓ Uma pergunta provocadora
Uma pessoa pode:
- continuar trabalhando;
- cumprir metas;
- não reclamar;
- parecer adaptada;
e ainda assim estar vivendo intenso sofrimento.
🔄 Adaptação ou transformação?
Uma pergunta importante para a Psicologia:
Essa pergunta será fundamental para nossa prática extensionista.
🏆 O papel do reconhecimento
O trabalho realizado nem sempre é completamente visível.
O reconhecimento permite que aquilo que foi efetivamente realizado seja:
- percebido;
- valorizado;
- reconhecido pelos outros.
🌟 Reconhecimento não é apenas elogio
Reconhecimento envolve também:
- perceber a contribuição;
- reconhecer competência;
- reconhecer pertencimento;
- reconhecer o esforço;
- reconhecer o valor do trabalho realizado.
🤝 Cooperação
Cooperar não significa simplesmente "trabalhar junto".
Envolve:
- confiança;
- regras compartilhadas;
- negociação;
- reconhecimento;
- possibilidade de diálogo.
O coletivo também organiza o trabalho.
✅ Quando a cooperação funciona
O trabalhador pode encontrar:
- apoio;
- pertencimento;
- troca de experiências;
- reconhecimento;
- possibilidade de aprender;
- possibilidade de construir soluções.
Esses elementos podem atuar como fatores de proteção.
⚠️ Quando a organização produz isolamento
↓ competição
↓ isolamento
↓ fragilização do coletivo
↓ maior dificuldade de enfrentamento
↓ sofrimento
⚠️ O que pode participar da produção do sofrimento?
Entre outros elementos:
- sobrecarga;
- ritmo excessivo;
- falta de autonomia;
- controle excessivo;
- insegurança;
- violência;
- assédio;
- conflitos;
- falta de reconhecimento;
- ausência de suporte;
- isolamento;
- metas incompatíveis com os recursos disponíveis.
Nenhum elemento deve ser analisado isoladamente.
🔍 O mesmo fator pode ser vivido de formas diferentes
Uma mesma exigência pode produzir experiências diferentes dependendo de:
- recursos disponíveis;
- autonomia;
- suporte;
- experiência;
- relações;
- reconhecimento;
- contexto.
Por isso, a análise psicossocial não funciona como uma simples lista de fatores.
🧠 Saúde mental no trabalho
Pensar saúde mental relacionada ao trabalho envolve observar:
- condições concretas;
- organização;
- relações;
- autonomia;
- reconhecimento;
- cooperação;
- possibilidade de ação;
- sentido atribuído ao trabalho.
📊 Sinais de sofrimento
Podemos encontrar manifestações como:
- exaustão;
- irritabilidade;
- ansiedade;
- alterações do sono;
- dificuldade de concentração;
- desmotivação;
- sensação de impotência;
- afastamento;
- conflitos;
- perda de sentido.
Mas sinais não são, por si só, diagnósticos nem comprovam causalidade.
⚠️ A armadilha da "resiliência"
Quando um trabalhador sofre, podemos oferecer:
- "treinamento de resiliência";
- "gestão emocional";
- "mindfulness";
- "gestão do estresse".
Essas estratégias podem ter utilidade.
Mas existe uma pergunta anterior:
O que está produzindo o estresse?
🤲 Cuidar da pessoa e transformar o contexto
Uma Psicologia comprometida com a saúde mental relacionada ao trabalho precisa trabalhar em duas direções:
Cuidar do sujeito
- acolher;
- escutar;
- orientar;
- fortalecer recursos.
Olhar para o contexto
- compreender a organização;
- identificar problemas;
- analisar relações;
- pensar possibilidades de transformação.
🔄 Da queixa à demanda
Uma pessoa pode chegar dizendo:
A queixa é importante. Mas precisamos transformá-la em uma demanda compreensível.
❓ Perguntas para investigar
- O que está acontecendo?
- Quando começou?
- O que mudou?
- Como é a rotina?
- Quais são as exigências?
- Que autonomia existe?
- Como é a relação com colegas e gestores?
- Existe reconhecimento?
- Existem recursos?
- O que a pessoa consegue transformar?
- O que está fora de seu alcance?
🔄 Mudar o foco
De:
"Por que essa pessoa não consegue lidar com o trabalho?"
Para:
"Que trabalho está sendo exigido dessa pessoa, em quais condições e com quais recursos?"
Essa mudança de olhar é fundamental.
🧠 Uma leitura psicossocial
↓ ORGANIZAÇÃO
↓ RELAÇÕES DE TRABALHO
↓ ATIVIDADE
↓ SUJEITO
↓ EXPERIÊNCIA / SOFRIMENTO
↓ FORMAS DE ENFRENTAMENTO
↓ SAÚDE OU ADOECIMENTO
Não é uma relação linear. É uma rede de relações.
📋 Caso: "Ela precisa dar conta"
Uma trabalhadora procura atendimento relatando:
- cansaço constante;
- irritabilidade;
- dificuldade de concentração;
- sensação de incompetência;
- ansiedade antes de iniciar o expediente;
- vontade de abandonar o emprego.
A empresa oferece um treinamento de: "Gestão emocional e resiliência".
🔍 Primeira leitura
O que poderíamos pensar inicialmente?
- falta de organização;
- baixa tolerância à pressão;
- ansiedade;
- dificuldade de adaptação;
- baixa resiliência.
🔍 Segunda leitura
Vamos investigar:
Como o trabalho está organizado?
- jornada;
- ritmo;
- metas;
- autonomia;
- controle;
- pausas;
- recursos;
- relações;
- reconhecimento;
- segurança;
- possibilidade de diálogo.
🔄 O que mudou?
A pergunta deixou de ser:
"O que há de errado com ela?"
E passou a ser:
"O que está acontecendo entre ela e o trabalho que realiza?"
Essa é uma mudança de perspectiva.
✏️ Atividade em grupos — Analisem o caso
Identifiquem:
- Elementos da organização do trabalho.
- Possíveis fontes de sofrimento.
- Estratégias utilizadas pela trabalhadora.
- Fatores de proteção.
- O que poderia ser transformado?
- Qual poderia ser o papel da Psicologia?
💬 Socialização
Para discutir coletivamente:
Se a intervenção for exclusivamente sobre a trabalhadora, o que pode ficar invisível?
E: Se olharmos apenas para a organização, o que também podemos deixar de considerar?
O desafio é construir uma leitura que articule sujeito e contexto.
🔍 Por que isso importa para nossa prática?
A prática extensionista trabalhará com população adulta da Clínica-Escola, prioritariamente com demandas relacionadas ao trabalho.
Os estudantes deverão desenvolver:
- escuta;
- análise da demanda;
- compreensão do contexto;
- psicoeducação;
- orientação;
- promoção da saúde mental;
- fortalecimento da autonomia e dos direitos.
A prática não substitui psicoterapia ou estágio clínico.
🚫 O que não queremos fazer
Não queremos transformar toda experiência de sofrimento em:
- diagnóstico;
- inadequação individual;
- falta de resiliência;
- problema de personalidade;
- incapacidade de adaptação.
Queremos compreender.
✅ O que queremos aprender a fazer
- Escutar o sofrimento sem individualizá-lo.
- Analisar o trabalho sem reduzir a pessoa ao seu trabalho.
- Compreender a relação entre sujeito e contexto.
- Identificar possibilidades de cuidado e transformação.
➡️ A pergunta que levamos para a Aula 7
Hoje perguntamos:
Como a organização do trabalho pode produzir sofrimento?
Na próxima aula:
Quais fatores psicossociais estão envolvidos e como podemos prevenir o adoecimento relacionado ao trabalho?
E depois:
Como transformar esse conhecimento em análise e intervenção?
🎯 Síntese da aula
não é apenas execução de tarefas.
↓ Organização do trabalho
define condições, relações, ritmos, controles e possibilidades de ação.
↓ Trabalho real
exige inteligência, experiência, corpo e criatividade.
↓ Sofrimento
surge na relação entre sujeito e realidade do trabalho.
↓ Estratégias defensivas
podem proteger, mas também podem ocultar problemas.
↓ Coletivo
cooperação e reconhecimento podem funcionar como proteção.
↓ Psicologia
precisa olhar para o sujeito e as condições em que ele trabalha.
🧠 Mapa mental
Organização do Trabalho, Sofrimento Psíquico e Saúde Mental
📚 Referências
Referência principal
- DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. ampliada. São Paulo: Cortez/Oboré, 1997.
Leitura central: Capítulo 2 — "Que sofrimento?"
Leitura complementar: Capítulo 1 — "As estratégias defensivas".
Texto complementar
- DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, v. 14, n. 3, p. 27–34, 2004.
Documento da disciplina
- PRÁTICA DE EXTENSÃO — DIREITOS HUMANOS, JUSTIÇA E TRABALHO. Ementa e cronograma 2026-2.