Saúde Mental Relacionada ao Trabalho · Aula 7

🧠 Saúde Mental Relacionada ao Trabalho,
Fatores Psicossociais e Prevenção

Da luta pela sobrevivência à prevenção dos riscos psicossociais
📘 Prática de Extensão — Direitos Humanos, Justiça e Trabalho 📅 AULA 7 — 22 de setembro de 2026

🗺️ Onde estamos no percurso?

Aula 4 — Justiça social, exclusão e vulnerabilidades
↓ Aula 5 — Trabalho como direito humano, identidade e subjetividade
↓ Aula 6 — Organização do trabalho, sofrimento psíquico e saúde mental
↓ Aula 7 — Saúde mental relacionada ao trabalho, fatores psicossociais e prevenção
↓ Aula 9 — NR-1 e gerenciamento dos riscos psicossociais

🤔 Uma pergunta para começar

Se hoje falamos em riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como chegamos até aqui?

A ideia de que o trabalho pode produzir sofrimento, adoecimento e morte não surgiu agora.

Ela foi sendo construída historicamente a partir:

  • das condições concretas de trabalho;
  • das experiências dos trabalhadores;
  • das lutas sociais;
  • das reivindicações coletivas;
  • da legislação;
  • da saúde pública;
  • da Psicologia e de outras áreas;
  • e da transformação daquilo que era considerado "normal" em risco e direito.
═══ PARTE I — DEJOURS E A HISTÓRIA DAS LUTAS ═══

📖 Dejours: a história começa pela sobrevivência

Na introdução de A loucura do trabalho, Dejours apresenta a história das condições de trabalho em relação às lutas dos trabalhadores por saúde e melhores condições de vida.

No século XIX, diante da industrialização:

  • jornadas extremamente longas;
  • baixos salários;
  • trabalho infantil;
  • acidentes;
  • subalimentação;
  • moradias precárias;
  • doenças;
  • elevada mortalidade.
A questão central era: sobreviver ao trabalho.

💭 "Viver é não morrer"

Para Dejours, naquele contexto histórico:

A luta pela saúde identifica-se com a luta pela sobrevivência.

O trabalhador precisava primeiro conseguir viver, antes que pudéssemos falar de saúde no sentido contemporâneo.

O que hoje consideramos "direito trabalhista" já foi, em algum momento, uma reivindicação social?

🇧🇷 Mas essa história não aconteceu apenas na França

E no Brasil?

Não podemos simplesmente copiar a periodização francesa.

A história brasileira tem uma particularidade fundamental:

a escravidão.

A construção do trabalho livre, do mercado de trabalho e dos direitos trabalhistas ocorreu em um país marcado por mais de três séculos de escravidão.

Por isso, a história do trabalho no Brasil precisa considerar:

escravidão → abolição → trabalho livre → industrialização → formação do operariado → lutas → legislação → direitos sociais
═══ PARTE II — A HISTÓRIA DO TRABALHO NO BRASIL ═══

⛓️ Antes do operariado: o trabalho escravizado

Durante séculos, grande parte da produção brasileira esteve baseada no trabalho escravizado.

Isso significa que a história brasileira do trabalho não começa com:

"operário + fábrica + sindicato".

Ela começa em uma sociedade marcada pela desigualdade estrutural das relações de trabalho.

1888 — Abolição da escravidão

Mas: abolir a escravidão não significou construir imediatamente igualdade nas relações de trabalho.

🕊️ Depois da abolição

A transição para o trabalho livre ocorreu em uma sociedade profundamente desigual.

Ao longo das décadas seguintes:

  • crescimento das cidades;
  • expansão de atividades industriais;
  • imigração;
  • formação de trabalhadores urbanos;
  • surgimento de novas formas de organização coletiva;
  • conflitos entre trabalhadores e empregadores.

A formação da classe trabalhadora brasileira foi, portanto, gradual e socialmente heterogênea.

🏙️ Nasce o trabalhador urbano organizado

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, São Paulo e Rio de Janeiro tornam-se importantes centros da organização operária.

Surgem:

  • associações de trabalhadores;
  • sindicatos;
  • imprensa operária;
  • organizações anarquistas e socialistas;
  • greves;
  • reivindicações por melhores condições de trabalho.

Boris Fausto estudou justamente a formação da classe trabalhadora e os conflitos sociais urbanos entre 1890 e 1920.

✊ O que os trabalhadores reivindicavam?

Entre as reivindicações estavam questões como:

  • redução da jornada;
  • melhores salários;
  • descanso;
  • condições de trabalho;
  • proteção contra acidentes;
  • regulamentação do trabalho;
  • organização coletiva;
  • reconhecimento de direitos.

Perceba:

aquilo que hoje aparece como norma começou, muitas vezes, como reivindicação.

📅 1917: um marco da mobilização operária

Greve Geral de 1917 — São Paulo

A mobilização expressou conflitos relacionados às condições de vida e de trabalho e tornou visível a força da organização operária.

A década de 1910 também foi marcada por debates institucionais sobre legislação social. O Conselho Nacional do Trabalho, criado em 1923, relacionava-se a esse contexto de debates entre trabalhadores, empregadores e Estado.

⚠️ Uma correção importante à narrativa tradicional

Às vezes aprendemos:

"Vargas deu os direitos trabalhistas aos trabalhadores."

A história é mais complexa.

Antes de 1930 já existiam:

  • mobilizações;
  • greves;
  • organizações;
  • reivindicações;
  • debates legislativos;
  • experiências de regulamentação.

A partir de 1930, o Estado passou a centralizar e ampliar fortemente a legislação trabalhista.

🏛️ 1930: uma nova relação entre Estado e trabalho

1930

Criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio

A partir daí ocorre forte expansão da legislação social e trabalhista.

Entre as medidas do período estão regulamentações sobre:

  • jornada;
  • trabalho de menores;
  • férias;
  • carteira profissional;
  • salário mínimo;
  • organização sindical;
  • previdência.

⚖️ Direitos e controle caminham juntos

Aqui existe uma contradição histórica importante.

O período Vargas:

ampliou direitos trabalhistas

e, simultaneamente, aumentou o controle estatal sobre a organização sindical

O TST descreve o período como marcado tanto por avanços na legislação quanto por repressão e restrições ao sindicalismo independente.

Uma conquista de direitos elimina necessariamente as relações de poder?

📜 1943: a CLT

1º de maio de 1943

Decreto-Lei nº 5.452

CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO — CLT

A CLT consolidou e organizou uma série de normas trabalhistas existentes.

Não significa que todos os direitos trabalhistas brasileiros tenham surgido naquele dia.

A própria história da CLT envolve legislação anterior, conflitos, reivindicações e transformações posteriores.

🔄 A pergunta começa a mudar

Podemos imaginar uma transformação histórica:

Século XIX
Como sobreviver ao trabalho?
↓ Movimentos de trabalhadores
Como reduzir a exploração?
↓ Legislação trabalhista
Quais condições precisam ser protegidas?
↓ Saúde e Segurança
Quais condições produzem acidentes e doenças?
↓ Saúde do trabalhador
Como o trabalho participa do processo saúde-doença?
↓ Psicologia do Trabalho
Como o trabalho afeta a subjetividade?
↓ Dejours
O que, na organização do trabalho, produz sofrimento?
↓ Riscos psicossociais
O que precisa ser identificado e prevenido?
═══ PARTE III — DA SAÚDE DO TRABALHADOR À SAÚDE MENTAL ═══

🔬 A saúde do trabalhador amplia o olhar

A Saúde do Trabalhador passa a considerar que o processo saúde-doença não pode ser explicado apenas por um agente isolado.

O Ministério da Saúde atualmente define a Saúde do Trabalhador como campo da Saúde Coletiva voltado à promoção da saúde e prevenção de agravos relacionados às condições de trabalho, reconhecendo o trabalho como determinante social da saúde.

🔍 Não é apenas "o ambiente"

O olhar contemporâneo inclui:

ambiente

processo de trabalho

relações de trabalho

organização do trabalho

condições sociais

formas de inserção laboral

→ processo saúde-doença

O próprio Ministério da Saúde afirma que a relação não deve ser reduzida a uma explicação monocausal ou exclusivamente centrada em agentes de risco.

📜 Constituição de 1988

A Constituição Federal estabelece a saúde como direito e atribui ao SUS competências relacionadas à saúde do trabalhador.

A partir dela, a saúde do trabalhador passa a ocupar um lugar importante dentro da política pública de saúde.

Isso será aprofundado posteriormente com:

SUS → Saúde do Trabalhador → Vigilância → Prevenção

🏥 SUS e Saúde do Trabalhador

A construção da Saúde do Trabalhador no SUS amplia o sujeito da política.

Não é somente:

trabalhador CLT

É também:

  • trabalhador formal;
  • informal;
  • autônomo;
  • temporário;
  • doméstico;
  • trabalhador rural;
  • trabalhador público;
  • trabalhador desempregado;
  • entre outras formas de inserção.

A PNSTT, instituída em 2012, explicita essa abrangência.

🔄 Uma mudança fundamental

De:

"Qual doença esse trabalhador tem?"

Para:

"Em que condições esse trabalhador vive e trabalha?"

E depois:

"O que, nas condições e na organização do trabalho, pode estar produzindo ou agravando esse sofrimento?"

Essa mudança será fundamental para compreender os fatores psicossociais relacionados ao trabalho.

═══ PARTE IV — DE DEJOURS À NR-1 ═══

📖 Dejours entra novamente

Na Aula 6 vimos:

trabalho prescrito

≠ trabalho real

E vimos que o trabalhador precisa mobilizar:

  • inteligência;
  • corpo;
  • experiência;
  • criatividade;
  • cooperação;
  • capacidade de adaptação.

Mas essa mobilização ocorre dentro de uma organização do trabalho.

❓ Onde está o risco?

Não basta perguntar:

"Por que essa pessoa não está dando conta?"

Precisamos perguntar:

"O que está acontecendo no trabalho para que ela precise dar conta dessa maneira?"

Essa é uma mudança de perspectiva.

⚖️ Individualização × leitura psicossocial

LEITURA INDIVIDUALIZANTE

  • "Ela é ansiosa."
  • "Ele não sabe lidar com pressão."
  • "Falta resiliência."
  • "Precisa aprender a administrar melhor o estresse."

LEITURA PSICOSSOCIAL

Quais são:

  • as demandas?
  • os prazos?
  • os recursos?
  • o grau de autonomia?
  • a participação?
  • a distribuição de responsabilidades?
  • as relações hierárquicas?
  • as formas de avaliação?
  • o reconhecimento?
  • os conflitos?
  • as situações de violência?
  • as condições concretas para realizar o trabalho?

⚖️ E aqui aparece a NR-1

A discussão contemporânea sobre fatores de risco psicossocial não começa com a NR-1.

Ela é parte de uma trajetória histórica mais ampla:

lutas sociais
→ direitos
→ saúde e segurança
→ saúde do trabalhador
→ Psicologia do Trabalho
→ organização do trabalho
→ riscos psicossociais
→ prevenção

🔄 O que a NR-1 muda no nosso olhar?

A questão deixa de ser apenas:

"Como ajudar o trabalhador a suportar melhor a pressão?"

E passa a incluir:

"Quais fatores relacionados ao trabalho precisam ser identificados, avaliados e prevenidos?"

Isso é muito diferente.

🛡️ Prevenção não é ensinar a suportar

PREVENÇÃO

não significa simplesmente:

  • treinamento de resiliência;
  • palestra sobre estresse;
  • técnicas de relaxamento;
  • ensinar o trabalhador a "se adaptar".

Essas estratégias podem ter lugar em determinadas situações.

Mas não substituem a análise e a intervenção sobre as condições que produzem o risco.

🎯 A pergunta central da Aula 7

Se o sofrimento aparece no trabalhador, onde devemos procurar suas determinações?

No sujeito?

Sim.

No trabalho?

Também.

Na organização?

Sim.

Nas relações sociais?

Também.

Na sociedade?

Dependendo da situação, também.

O olhar psicossocial não escolhe entre indivíduo e contexto. Ele investiga a relação entre eles.

═══ PARTE V — A LINHA HISTÓRICA COMPLETA ═══

🌍 França e Brasil: duas histórias que se encontram

DEJOURS — FRANÇA

Industrialização
↓ exploração
↓ lutas operárias
↓ saúde e sobrevivência
↓ proteção social
↓ saúde do trabalhador
↓ Psicodinâmica do Trabalho

BRASIL

Escravidão
↓ abolição
↓ trabalho livre
↓ industrialização
↓ movimento operário
↓ legislação trabalhista
↓ CLT
↓ Constituição de 1988
↓ SUS / Saúde do Trabalhador
↓ riscos psicossociais

🔍 Não são histórias idênticas

França

industrialização → formação operária → lutas → direitos

Brasil

escravidão → abolição → trabalho livre → industrialização → formação operária → lutas → legislação

O contexto histórico modifica a forma como o trabalho é vivido e regulado.

🧵 O fio que une as duas histórias

Apesar das diferenças:

trabalhadores tornam visíveis problemas que antes eram naturalizados.

O que era:

"faz parte do trabalho"

pode passar a ser compreendido como:

risco

ou

violação de direito

ou

condição que precisa ser transformada.

🧠 E isso nos leva à Psicologia

A Psicologia não entra para perguntar somente:

"O que há de errado com o trabalhador?"

Ela pode perguntar:

  • O que esse trabalhador está vivendo?
  • Como o trabalho está organizado?
  • O que é prescrito e o que é realizado?
  • Que recursos existem?
  • Que possibilidades de ação existem?
  • Que relações de poder atravessam a situação?
  • Que elementos podem representar risco psicossocial?

🌉 A ponte para o restante da aula

Agora que sabemos de onde veio essa discussão, podemos avançar:

O QUE SÃO FATORES PSICOSSOCIAIS RELACIONADOS AO TRABALHO?

E então investigar:

  • organização do trabalho;
  • demandas;
  • autonomia;
  • controle;
  • relações;
  • reconhecimento;
  • violência;
  • assédio;
  • jornada;
  • ritmo;
  • responsabilidades;
  • participação;
  • suporte;
  • conflitos;
  • insegurança;
  • mudanças organizacionais.

✏️ Atividade rápida

Pense em uma condição de trabalho que durante muito tempo foi considerada "normal".

Pode ser:

  • jornada;
  • cobrança;
  • disponibilidade permanente;
  • ausência de pausas;
  • metas;
  • assédio;
  • insegurança;
  • sobrecarga;
  • falta de autonomia.
Em que momento uma condição "normal" passa a ser reconhecida como um risco?

🏁 Fechamento do bloco histórico

A história do trabalho também é a história daquilo que os trabalhadores conseguiram tornar visível.

O que era invisível

→ torna-se sofrimento

→ torna-se reivindicação

→ torna-se problema social

→ torna-se objeto de legislação

→ torna-se objeto de saúde pública

→ torna-se objeto de prevenção.

E é nesse caminho que chegamos aos riscos psicossociais.

🔑 A frase de transição

DE "SUPORTAR O TRABALHO" PARA "TRANSFORMAR AS CONDIÇÕES DE TRABALHO"

É essa passagem que nos interessa.

E é a partir dela que podemos compreender: saúde mental relacionada ao trabalho.

🧠 Mapa mental

Saúde Mental Relacionada ao Trabalho, Fatores Psicossociais e Prevenção

SAÚDE MENTAL RELACIONADA AO TRABALHO, FATORES PSICOSSOCIAIS E PREVENÇÃO
├── 1. HISTÓRIA DO TRABALHO │ ├── Trabalho como sobrevivência │ ├── Industrialização │ ├── Escravidão e trabalho livre no Brasil │ ├── Formação do operariado │ └── Lutas e conquistas dos trabalhadores │ ├── 2. DIREITOS E PROTEÇÃO │ ├── Organização dos trabalhadores │ ├── Legislação trabalhista │ ├── CLT │ ├── Constituição Federal │ └── Saúde do trabalhador │ ├── 3. DEJOURS │ ├── Trabalho prescrito × trabalho real │ ├── Organização do trabalho │ ├── Sofrimento │ ├── Estratégias defensivas │ ├── Cooperação │ └── Reconhecimento │ ├── 4. SAÚDE MENTAL │ ├── Trabalho e subjetividade │ ├── Processo saúde–doença │ ├── Possibilidade de agir │ ├── Autonomia │ └── Relações sociais de trabalho │ ├── 5. FATORES PSICOSSOCIAIS │ ├── Demandas e ritmo │ ├── Autonomia e controle │ ├── Participação │ ├── Relações e conflitos │ ├── Reconhecimento │ ├── Violência e assédio │ └── Condições e organização do trabalho │ ├── 6. PREVENÇÃO │ ├── Identificar │ ├── Avaliar │ ├── Prevenir │ ├── Intervir sobre o trabalho │ └── Evitar a individualização do sofrimento │ └── 7. PSICOLOGIA ├── Escutar ├── Contextualizar ├── Analisar a demanda ├── Investigar o trabalho real ├── Identificar riscos └── Promover saúde e transformação

📚 Referências

  • DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez/Oboré, 1997.
  • FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). São Paulo: DIFEL, 1976.
  • GOMES, Angela Maria de Castro. A invenção do trabalhismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora — PNSTT. 2012.
  • BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 — Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
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